06/08/2022 às 08h00min - Atualizada em 06/08/2022 às 12h00min

Disputa dos direitos de Taiwan por EUA e China marcam início de mais um capítulo da Guerra Fria 2.0

Especialistas não acreditam que tensões vão desencadear em um conflito bélico, mas alertam que acirramento do confronto deve gerar volatilidade nos mercados e prejudicar países emergentes como o Brasil

Jovem Pan
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A visita da presidente da Câmara de Representantes dos Estados Unidos, Nancy Pelosi, a Taiwan deu início a mais um capítulo da Guerra Fria 2.0 e aumentou as tensões entre o país, a China, e os Estados Unidos. Desde quinta-feira, 4, os chineses começaram a realizar manobras militares em torno da ilha e, pela primeira vez, mísseis sobrevoaram as dependências da nação autônoma, informou a imprensa estatal. Nenhum dos dois países confirmaram formalmente a informação. Contudo, o ministério da Defesa de Taiwan disse que aviões de combate e barcos chineses cruzaram a “linha mediana” do estreito que separa a ilha da China continental. Para entender a situação atual, é preciso voltar ao passado. O conflito entre as nações asiáticas é antigo, acontece desde o fim da guerra civil chinesa em 1949 e já foi cenário de três crises militares. A primeira, quando as forças comunistas de Mao Tsé-Tung conseguiram afastar os nacionalistas de Chiang Kai-shek, que se instalaram em Taiwan. A China comunista respondeu com bombardeios de artilharia contra o arquipélago e tomou as ilhas Yijiangshan, que ficam 400 km ao norte de Taipé. A crise quase provocou um conflito direto entre chineses e os Estados Unidos.

O segundo confronto aconteceu em 1958, quando as forças de Mao bombardearam Kinmen e Matsu visando expulsar mais uma vez as tropas nacionalistas. Temendo que a perda das ilhas resultasse na derrota dos nacionalistas e na tomada de Taiwan por Pequim, o presidente dos Estados Unidos, Dwight D. Eisenhower, ordenou que os militares americanos escoltassem e reabastecessem os aliados taiwaneses. Sem conseguir tomar as ilhas próximas de sua costa nem derrotar os nacionalistas com seus bombardeios, Pequim anunciou um cessar-fogo e depois um status quo de tensão foi estabelecido. A terceira crise aconteceu 37 anos depois, em um período em que as nações mudaram drasticamente. A China iniciou um período de reforma e abertura ao mundo, e em 1971 substituiu Taiwan na Organização das Nações Unidas (ONU) e quase toda comunidade internacional adotou a política de “Uma só China”, que exclui as relações diplomáticas com o governo nacionalista. Enquanto isso, Taiwan começou a evoluir para uma democracia, o que resultou no desenvolvimento de uma forte identidade taiwanesa, diferente da chinesa. Apesar de não reconhecer a região como um país e em 1979 terem rompido relações diplomáticas com Taiwan e reconheceram Pequim, Washington continuou sendo o principal aliado de Taiwan e seu principal fornecedor de equipamentos militares. Desde então, a China comunista tenta reunificar as regiões com a política nomeada como “Uma só China”. Por trás destes confrontos existem três pontos centrais em jogo: politica, geopolítica e economia.

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Nancy Pelosi desembarcou em Taiwan na terça-feira e aumentou a tensão entre Estados Unidos e China. Ela está de roa na foto │Reprodução/Twitter/@SpeakerPelosi

“Taiwan é uma grande democracia. Para os Estados Unidos é importante ter uma nação econômica e militarmente forte para conter a expansão da China na Ásia”, explica o doutor em Relações Internacionais Igor Lucena, lembrando que desde que a guerra civil da China acabou, Taiwan nunca fez parte do governo comunista. “Quando falamos da situação econômica de Taiwan, estamos falando de um grande desenvolvedor de nano e micro-tecnologia”, acrescenta. Lucena diz também que há uma dependência mundial da economia de Taiwan do ponto de vista de microchips. “Eles estão em uma vanguarda superior a outras nações”, resume. O mundo vive, atualmente, um momento de crise com a escassez de semicondutores. “Para a economia americana é fundamental que essa tecnologia não fique nas mãos dos chineses”, conclui. O cientista político Leandro Consentino explica que é importante para os americanos terem esse aliado porque Taiwan é “um enclave importante do ponto de vista de trânsito internacional e de produção” e que a conquista do território pelos chineses não é benéfico porque eles “não querem um expansionismo e imperialismo chinês para outras áreas”. À medida em que se tem uma nação buscando sua economia e não dando vasão para um imperialismo chinês, “os EUA vão apoiar esse pleito para evitar o expansionismo”, explica. Além disso, a região de Taiwan é uma grande saída para o mar do sul da China, “importante para quem buscar atacar a China ou montar uma base”.

Os especialistas ouvidos pela Jovem Pan discordam da tese de que a visita de Pelosi a Taiwan tenha sido imprudente. “Em política não há momento inoportuno e coincidência”, diz Lucena. “Os Estados Unidos sabem que Xi Jinping está em crise”, afirma o professor, acrescentando que o país pode ter problemas no setor financeiro devido ao crescimento chinês que está menor do que o esperado e aos problemas imobiliários que tem enfrentado. “Os norte-americanos sabem que o presidente chinês não vai querer se meter em um conflito que pode piorar a economia chinesa e colocar em xeque sua liderança”, explica. Para ele, “a visita foi feita e um momento estratégico”. Consentino acrescenta dizendo que Pelosi não é qualquer pessoa. “Ela é a terceira na linha de sucessão de Joe Biden”, presidente de um país que é “um dos mais importantes do ponto de vista militar e econômico”. Além do fato de que ela é “defensora dos interesses de Taiwan”. O cientista político também defende que a visita a Taiwan tenha sido de caráter pessoal e uma forma de dizer que os EUA “não vão mais tolerar a ascensão de países autoritários sobre regiões próximas”, se referindo ao conflito que acontece no Leste Europeu desde 24 de fevereiro, quando a Rússia invadiu a Ucrânia.

míssil chines japão

míssil chines japão

China disparou míssil em direção a Taiwan em resposta a visita de Nancy Pelosi a ilha │Noel Celis / AFP

O atrito de Pelosi com a China não é recente. Ao longo de sua carreira, ela não perdeu a oportunidade de repreender Pequim pelo que considera um histórico sombrio em matéria de direitos humanos e democracia. Ela já denunciou repetidamente o que chamou de “massacre” de 1989 na Praça da Paz Celestial contra manifestantes pró-democracia, e acusou o serviço de segurança chinês de realizar execuções secretas. “Os direitos humanos do povo chinês não são um assunto interno”, declarou ao visitar a ilha. Sua viagem é vista com maus olhos pelos chineses, que temem que Taiwan se torne independente e outros países reconheçam isso. “A visita de uma pessoa de alta representatividade é vista como uma intromissão no assunto interno da China”, diz Consentino, para quem há um peso importante nesta agenda. “Mostra que Taiwan é uma coisa e China é outra”. Além disso, o especialista diz que uma possível independência da região enfraquece o pleito chinês. “O grande sonho de Xi Jinping é a grande unificação chinesa. Isso já foi parcialmente feito com Hong Kong e Macau”. Lucena pondera que o enfraquecimento da China diminui sua capacidade de expansão e abre possibilidade para a “independência de outras regiões”.

 

Apesar das últimas manobras da China, os especialistas não acreditam na eclosão de um conflito armado. “Estamos assistindo mais um capítulo da Guerra Fria 2.0”, diz Lucena. “É difícil que um conflito armado ocorra de maneira direta”, pontua Consentino. “Na guerra fria já se teve essa problemática de que as potências nuclearizadas não se enfrentam diretamente, exatamente pelo risco de uma hecatombe”, acrescenta o cientista político. Para ele, o que podemos imaginar são mecanismos de sanção como vemos na Rússia. Na sexta-feira, 5, a China sancionou Nancy Pelosi e sua família. “Com esta visita, Pelosi interferiu gravemente nos assuntos internos da China e minou seriamente a soberania e integridade territorial”, o que levará Pequim a “impor sanções a Pelosi e sua família imediata”, anunciou o ministério das Relações Exteriores da China, sem revelar mais detalhes. Outra possibilidade para qual ele alerta é a de conflitos indiretos como o “fornecimento de armamentos para que Taiwan possa se defender”. Lucena prevê que o que devemos ver nos próximos dias é a China, que tem um poder militar forte, dando a entender que “se quisesse atacar Taiwan poderia fazer isso a qualquer momento”.

Mesmo que não acreditem que um conflito direto vai acontecer, os especialistas destacam que qualquer instabilidade entre China, Estados Unidos e Taiwan é mais um problema para o cenário mundial, porque estamos saindo de uma pandemia que desestabilizou muitas áreas e, em sequência, já nos deparamos com uma guerra que custou muito do ponto de vista da economia – as principais consequências são o aumento da inflação e do desemprego no mundo inteiro. “Mais uma instabilidade em uma região tão importante e estratégica vai gerar um problema ainda maior e dificultar para países emergentes como o Brasil”, diz Consentino. Lucena acrescenta que a imposição de sanções, um desdobramento que acredita ser possível, “gera volatilidade nos mercados e aumentam os preços e inflação no planeta inteiro”. Por isso, diz, “as consequências para o mundo podem ser por essa linha”.

Fonte: https://jovempan.com.br/noticias/mundo/disputa-dos-direitos-de-taiwan-por-eua-e-china-marcam-inicio-de-mais-um-capitulo-da-guerra-fria-2-0.html

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